uma arte sem falsas promessas

 

Outro é o mundo que vislumbramos nas gravuras de Márcio Pannunzio − jamais o nosso. É, sem dúvida, tendo isso em mente que muitos as fitam, concedendo ao olhar o fascínio de contemplar um mundo diverso, tão estranho e diferente, e figurado com uma assombrosa riqueza de detalhes: que fértil imaginação é essa, capaz de compor de modo tão minucioso cenários que parecem uma inversão de nossa realidade cotidiana? Motivados por essa estranheza, esses (ingênuos) olhares contemplam aquelas imagens como se fossem retratos de uma realidade sombria − turísticas paisagens de uma terra de horrores − , o que ao fim serve como uma espécie de consolo: por piores que estejam as coisas, por maiores que pareçam as nossas dificuldades, resta o conforto de não se compararem às mazelas daquele mundo imaginário em que tudo se resume ao caos e à desordem, num pesadelo sem fim.

 

Contudo, um olhar que se demore ao examinar as obras de Márcio Pannunzio não tardará a perceber, aqui e ali, indícios de que aquelas cenas não são, afinal, tão diversas das que presenciamos cotidianamente; e se, após a perturbação inicial, ousar persistir na perscrutação, logo se verá obrigado a admitir que, de fato, aquele mundo é o nosso − embora desprovido dos véus que nos asseguram uma vida razoavelmente confortável, ao menos enquanto nos mantêm longe das terríveis verdades que Pannunzio, ignorando o pudor hipócrita a que estamos habituados, nos faz contemplar. Trata-se, portanto, de uma arte sobretudo crítica, que põe abaixo os inúmeros sedativos que permeiam o nosso dia-a-dia, revelando os horrores que subjazem a tudo o que embevece e maravilha os olhos entorpecidos. Nesse sentido, cabe observar a eficácia da estética cultivada por Pannunzio: o investimento na minúcia acaba por constituir uma inversão da exuberância kitsch que esplende na paisagem contemporânea.